A profunda alegria de um amor inteiramente realizado: algumas ideias sobre Como Era Gostoso o Meu Francês (1971)

Por ocasião de uma pesquisa de Iniciação Científica, tenho tido bastante contato com o filme Como Era Gostoso o Meu Francês (1971), dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Sem entrar a fundo na sinopse, o filme é uma adaptação livre do relato de Hans Staden, carabineiro e mercenário alemão (no filme, transformado em francês) que foi capturado por indígenas Tupinambás e assim registrou seus hábitos, com especial atenção à prática do canibalismo ritual. Tudo isso no século XVI, quando o Brasil ainda era uma colônia portuguesa tão distante quanto exótica aos olhos europeus, rica de uma vida pregressa que logo seria devastada.

A partir disso, o filme apresenta uma crítica à ocupação estrangeira no país. Não à toa, num Brasil em pleno milagre econômico (que logo se provaria um salto pouco produtivo em direção à década perdida de 1980) e alvoroço autoritário, Nelson Pereira dos Santos recorreu a um texto do século XVI tão descarado em sua certeza de superioridade europeia para subvertê-lo em prol de seu projeto de cinema nacional. Entre as várias formas em que tal descolamento com o material-base se dá, criando a dissonância entre a suposta história oficial e uma revisão de influência tropicalista, talvez a mais importante se encontre na própria conclusão do filme.

Sendo o texto original um relato, parte-se do fato de que Hans Staden sobreviveu a seu cativeiro para contar a história. De forma semelhante, o filme constrói apreensão no público sobre a sobrevivência do rapaz francês. Porém, o filme e o relato se desencontram em seus pontos de vista. Enquanto o relato parte da perspectiva de Hans Staden como sobrevivente, o filme por sua vez não deve ao alemão (e muito menos ao francês) absolutamente nada. Afinal, se trata de uma adaptação livre e, nesse caso, estamos mais próximos da perspectiva indígena.

Assim, a cena final do filme é justamente a imagem das mais pessimistas se formos levados a crer que o protagonista é o estrangeiro, ao mesmo tempo que seria um fechamento à altura pelo ponto de vista indígena. Numa tentativa fracassada de fugir, Jean, o francês, é capturado por Seboipepe, seu par romântico designado no período de cativeiro na aldeia, e é ao fim devorado num ritual antropofágico. É de se imaginar que, tanto à época como agora, essa imagem tenha perturbado o público, afinal, é muito mais cômodo nos identificarmos com o estrangeiro aprisionado do que com o indígena que o devora.

Esse talvez seja o deslocamento fundamental que Nelson Pereira dos Santos busca promover nesse filme um tanto esquecido de sua obra. O fato de que Seboipepe devora Jean não é exatamente uma surpresa do roteiro. Há, ao longo do filme, a construção de um romance legítimo entre os dois. A maior parte do desenvolvimento do filme se concentra na relação entre eles: Seboipepe explica a cosmovisão Tupinambá a Jean, eles nadam, caçam, dormem juntos e até causam risadas nos companheiros de Seboipepe pela proximidade alcançada. Não há, porém, o amor romântico do qual estamos acostumados, no qual ambos escapariam da aldeia para ir à terra de Jean. Basta dizer que a cena mais romântica do filme é o momento em que ela descreve a Jean em detalhes o ritual no qual ele seria posteriormente devorado.

Em certo momento, Jean pergunta a Seboipepe se ela o ama, no que ela responde prontamente que sim. Ele pergunta, então, se ela irá comê-lo mesmo assim, recebendo outra resposta afirmativa. Não podemos nos enganar de que Seboipep ama Jean, e é justamente por isso (e não apesar disso) ela o devora. Na tradição antropofágica, se comeria apenas aqueles que ofereceriam algum valor, não os covardes. Jean é secretamente um covarde mas externaliza certas virtudes – principalmente ao produzir pólvora e auxiliar os Tupinambás em suas empreitadas contra os Tupiniquins. Em seu jogo duplo de aproximação e afastamento na expectativa de uma fuga, ele integra, querendo ou não, a vida na aldeia. Aí reside o caráter trágico que Nelson Pereira confere ao roteiro: é na tentativa de escapar de seu destino que Jean acaba por cumprí-lo.

Mas, aquilo que seria a tragédia do estrangeiro poderia muito bem ser para o nativo um ato de respeito ou, no limite da adaptação de Nelson Pereira, até mesmo um gesto de amor. É, hoje em dia, anti-intuitivo pensar num amor que devore a alteridade dessa forma. Talvez, se pensarmos na cena final não pelas vias da assimilação do estrangeiro mas sim como autotransformação de Seboipepe, as coisas assumam outros contrastes não apenas em relação ao conceito de antropofagia como também a certas ideias de amor. O final do filme tem conotações inúmeras, passando pela discussão econômica, social e histórica. Apesar de tudo, o argumento original escrito por Nelson Pereira dos Santos termina num tom eminentemente romântico:

Nos olhos de Seboipepe, que mastiga com doce prazer, vê-se a profunda alegria de um amor inteiramente realizado”.