Uma mulher não é uma mulher – Obsessão (2026)
Obsessão (2026), dirigido por Curry Barker.
a rosa não é uma rosa não é uma rosa não é uma rosa
uma mulher não é uma mulher não é uma mulher não é uma mulher
Gabriele Stotzer
Em Obsessão, Nikki é a projeção do Homem absoluto. O filme materializa uma mulher cuja existência depende intrinsecamente da existência do outro. A protagonista não existe em si mesma: ela nasce da idealização de Bear e do desejo que ele cultiva de tê-la para si.
Num primeiro momento, Bear deseja Nikki com certa passividade. Ele a observa, a fantasia e alimenta silenciosamente esse desejo até finalmente consumá-lo por meio de um feitiço. Mas, como toda idealização que se torna realidade, a vida escapa ao controle de quem deseja. O objeto imaginado adquire corpo, vontade e consequências.
Em Valquírias, Elsa von Freytag-Loringhoven escreve: “Sabermulher me deixou! […] uma AMULHER — / Com o homem”. A mulher surge como uma categoria inseparável do homem, uma identidade construída a partir dele e para ele. Nikki compartilha dessa mesma condição. Antes mesmo de ser transformada pelo feitiço de Bear, sua autonomia já é colocada em disputa: sua existência passa a ser atravessada pelo olhar masculino que a idealiza e tenta moldá-la segundo seus próprios desejos. Ela não nasce da imaginação de Bear, mas é reconstruída por ela, tornando-se menos um sujeito de sua própria história e mais uma projeção daquilo que ele deseja possuir.
A obra de Berker é apresentada como um horror. O filme mobiliza diversos elementos clássicos do gênero, como a criação de um corpo artificial, a deformidade física, a atmosfera sombria, o gore, a violência gráfica, os espaços decadentes, a iluminação contrastada e a constante sensação de ameaça. Esses elementos, porém, servem menos para caracterizar Nikki como um monstro do que para expor a violência do ato criador, fazendo com que o horror se concentre progressivamente em Bear e nas relações de poder que ele estabelece.
Essas relações de poder se traduzem em ciúme doentio, em crises de possessividade, em agressões que se repetem. Afinal, ela “ama” porque foi enfeitiçada para amar, e é dessa impossibilidade de recusa que o abuso se alimenta. Mas diante do que ele mesmo desencadeou, Bear não age, a mesma passividade que o levou a apenas observar e fantasiar Nikki antes do feitiço é a que o mantém inerte agora, diante da violência que sua criação provoca. Bear não impede, não intervém, não se responsabiliza: apenas testemunha o resultado do próprio desejo, como se aquilo não lhe dissesse respeito.
Bear morre e desaparece, mas não antes de abandonar Nikki em meio aos destroços que ele próprio produziu. A violência que a constituiu permanece sendo sua responsabilidade, enquanto o homem que a desencadeou simplesmente deixa de existir.
Há algo bastante familiar nesse gesto. É inumerável os casos em que os homens abandonam a relação enquanto as mulheres permanecem recolhendo e limpando tudo o que fora feito juntos, são elas que administram os traumas, elaboram o luto, reorganizam a vida e carregam as marcas emocionais de conflitos que não criaram sozinhas. A morte de Bear funciona quase como uma metáfora dessa saída covarde: ele desaparece, mas a sujeira continua. E, mais uma vez, quem fica encarregada de limpá-la é a mulher.
No fim, Obsessão revela que Nikki nunca foi o monstro. O verdadeiro horror reside na fantasia masculina que acredita ser possível criar uma mulher para si, controlá-la e, quando tudo desmorona, ausentar-se das consequências de sua própria criação.
FREYTAG-LORINGHOVEN, Elsa von. Walküre (“Valquírias”). c. 1923. Tradução provisória de Mariana Holmes.