Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026)
Se há algo permeando todo o universo de filmes de terror B, entre slashers e afins, é um quê absolutamente pulsional no qual se juntam no mesmo balaio as mortes escatológicas, os assassinos implacáveis, as transas adolescentes entre outros tropos do subgênero. É o que se vê na abertura de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026), novo filme de Jane Schonborn, dotada de uma sensibilidade “pós-internet” bastante particular, como Paul Schrader escreveu em comentário sobre o filme, no qual após a recriação de uma cena de morte um tanto banal, um bizarro jato de sangue irrompe em direção ao céu.
Seguimos Kris (Hannah Einbinder), uma jovem diretora em ascensão escalada para ressuscitar a franquia “Acampamento Miasma” de filmes de terror cult dos anos 1970 e 1980. Em seu esforço de pesquisa, ela visita a protagonista do primeiro filme (e responsável por seu despertar sexual), Billy (Gillian Anderson), que vive reclusa na locação usada na versão original. Na medida em que a relação entre elas oscila entre idolatria, romance e amizade, o filme se centra no processo de destravar as ideias de Kris ao revisitar a franquia, em especial o primeiro longa-metragem. Apesar disso, o que há de metalinguístico no filme não está no terror em si, como quando em O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (1994) de Wes Craven (citado no filme de 2026, inclusive), a franquia assombra de forma literal os personagens, mas sim na revisão dos elementos do terror slasher pelas vias do desejo através de uma certa sensibilidade pós-irônica da diretora.
Ou seja, trata-se de um apelo ao lado mais dionisíaco desses filmes. Não à toa, Kris, que num primeiro momento se mostra uma mulher isolada em sua própria cabeça, só consegue elaborar suas ideias sobre a ressurreição da franquia quando, com a ajuda de Billy, finalmente atinge um orgasmo. Aos entusiastas de manuais de roteiro, esse seria, em poucas palavras, o arco da protagonista: aprender a gozar. E aqui, dentro das regras de encenação do filme de terror e numa das sequências mais simbólicas, se torna tanto vítima como assassino – ela finalmente sai de si. Vale dizer que Little Death, o assassino da franquia fictícia, nada mais é que a tradução de petite mort, nome dado pelos franceses ao orgasmo. É uma escolha oportuna, afinal esses filmes sempre foram sobre “sangue e fluídos”, como define a personagem de Gillian Anderson.
Existem muitas ideias a serem tiradas de Acampamento Miasma: Adolescência, Sexo e Morte (2026) e essa é, no geral, uma das virtudes de um bom filme. No entanto, algumas ficam um tanto subdesenvolvidas ou por demais claras. A inversão de perspectivas em favor da figura de Little Death, por exemplo, como um conceito dentro da discussão sobre “ver e ser visto”, promovida por uma das poucas cineastas trans com a plataforma e os recursos para pautar tais assuntos, é articulada de maneira um tanto esquemática. De modo geral, uma das questões do filme é que ele se propõe como uma revisão do gênero de terror e articula, por essa estrutura, ideias brilhantes. Por vezes, porém, as ideias se tornam maiores que a história em si, sendo o prazer de identificar conceitos mais fortes que o da própria narrativa.
Se uma das características da geração com a qual Schonborn se direciona é um certo vício pelo sentido dos filmes e da arte como um todo, é com sensibilidade pós-irônica, ou seja, jogando luz deliberadamente às próprias ideias propostas e discutindo-as frontalmente, que a diretora nos conduz por um filme repleto de sentidos (alguns incompletos e alguns bastante completos). Causa, em quem for fisgado pela proposta, uma convergência de estímulos que só alguém que cresceu com acesso à internet seria capaz de desenvolver plenamente.