Amarga Navidad (2026)

Na coletiva de apresentação de Amarga Navidad (2026), no festival de Cannes de 2026, o diretor espanhol Pedro Almodóvar, do alto de seus 76 anos de idade, indicou o tom de crise pessoal presente no filme que estreou no Brasil na última semana de maio: “Estou farto de mim mesmo. E estou buscando alguém com quem escrever, que me traga novos mundos.” E adiciona: “Após um filme como esse, quero ir por outros caminhos.” Em especial pensando no semi-autobiográfico Dor e Glória (2019) e no mais recente O Quarto Ao Lado (2024), percebe-se uma virada temática que aproxima os filmes do diretor de reflexões sobre a própria produção artística e a finitude da vida. O lançamento parece mesmo dialogar com uma fase mais introspectiva de sua obra e, de alguma forma, arrisca encerrá-la, como ele mesmo comentou.

Em Amarga Navidad (2026) acompanhamos duas linhas do tempo. Na primeira, passada no início dos anos 2000, Elsa (Bárbara Lennie), uma diretora de filmes publicitários, lida com o luto da morte de sua mãe e com ataques de ansiedade. Na segunda, que se passa nos anos 2020, Raúl (Leonardo Sbaraglia), um renomado diretor de cinema, procura inspiração para finalizar um roteiro e assim voltar a filmar após anos parado. As duas histórias se entrecruzam obedecendo a máxima de que o sujeito criativo é aquele que vampiriza o que está ao seu redor em prol de sua criação. Numa espécie de revisão do legado melodramático que construiu ao longo de sua carreira, Almodóvar retrata a vida e a arte se retroalimentando de forma contínua e, sendo o artista um mediador sensível entre esses dois polos, suas escolhas passam longe de serem inofensivas e conciliadoras.

Menciono um “legado melodramático” porque uma forma sucinta de definir o melodrama seria pela ideia de que os eventos que se abatem sobre os personagens são maiores e mais complexos do que os próprios personagens. Nesse caso, os personagens de Raul e Elsa, na figura dos criadores de suas obras, o primeiro de carreira estabelecida e a segunda relegada a diretora de filmes cult, são testemunhas da vida como um melodrama, observando como seus parentes e amigos lidam com traumas, traições, amores impossíveis e mais. Eventualmente, ambos também se tornam peças do jogo melodramático proposto, reforçando uma das formas na qual o intercâmbio entre vida e arte se dá, mas são eles, acima de tudo, observadores distanciados que assimilam traços de vida em suas obras, os donos da história dos outros. Não diferente de Raul e Elsa seria o próprio Almodóvar, sendo as ligações entre o diretor madrilenho e o personagem Raul abertamente específicas, assim como a personagem de Elsa me faz questionar se não seria uma forma mais indireta de representar um certo lado mais ressentido do diretor.

De qualquer forma, o caráter metalinguístico do roteiro parece indicar que o processo criativo é tão irreconciliável quanto infinito. Se fôssemos quebrar em níveis de metalinguagem, inclusive, seriam quatro: Amarga Navidad (2026) parte de Almodóvar, que escreveu um filme sobre alguém escrevendo um filme sobre outro alguém escrevendo um filme no qual esse outro alguém também está escrevendo um filme. Longe de ser gratuito, esse movimento em direção à inconclusão talvez seja a forma mais sincera de aceitar a vida como um eterno impasse de traços melodramáticos e romper um pouco com o casulo egoico do autor que vampiriza a existência dos outros e, em última instância e de maneira mais prolongada, a própria.

Na sessão que fui, a cena final do filme, um aceno à ideia de continuidade da escrita como forma de lidar com a existência (e sua finitude), despertou alguns suspiros de desapontamento por parte do público. Entendo a frustração da falta de resolução, mas se concordarmos com a ideia que Christian Dunker adapta de Montaigne e Cícero de que, “escrever é aprender a morrer”, é possível especular que Almodóvar tenha ao fim entrado em termos com questões de natureza interna que pautaram seus últimos trabalhos, podendo assim seguir trabalhando e quem sabe olhar mais para fora. Não à toa, anunciou estar em vias de gravar uma comédia.