Michael (2026): culto a um ídolo vazio
A quem interessar saber, não restarão, entre personalidades públicas como a própria Paris Jackson e jornalistas no geral, pessoas que fizeram o apontamento de que Michael (2026), dirigido por Antoine Fuqua, oferece uma leitura rasa da história do cantor (aqui interpretado por Jaafar Jackson) retratando–o como uma figura ingênua e santificada. Seu desejo? Se libertar das amarras do pai, Jonathan (Colman Domingo), e se tornar o maior cantor de todos os tempos. Suas virtudes? Infinitas. Presenteia crianças doentes com brinquedos, é dotado de uma conexão espiritual com animais (inclusive o pitoresco macaco de CGI Bubbles), tem como processo criativo para escrita de suas músicas anotações de frases em post-its e sessões de relaxamento na piscina, entre outros descaramentos promovidos pelo filme. Suas contradições? Seus temores? Suas questões? Nuances? O arco temporal do filme estrategicamente se encerra antes de Neverland, das plásticas cada vez mais frequentes, do comportamento errático, enfim…
Então não é preciso gastar tempo indicando a superficialidade de Michael (2026). Vale dizer, contudo, que se trata de sintoma do vício em biopics que têm acometido estúdios em crise financeira. É, quem sabe, a mais espetacular manifestação desse fenômeno cultural recente, desde Bohemian Rhapsody (2017), pioneiro da tendência, ambos produzidos por Graham King. São filmes cuja função é cobrir o máximo de terreno possível da forma mais eficiente e inofensiva. Por isso, são estruturados a partir de sequências de montagem musical mostrando eventos principais numa correria embalada pela excelente trilha sonora. No caso de Michael (2026), por exemplo, a ascensão dos Jackson 5, com o cantor ainda criança, se dá dessa forma, passageira mas perfeitamente funcional para a proposta do roteiro.
Roteiro, por sinal, encomendado pelo espólio de Michael Jackson. O fato do filme ser produzido pela família e pelo ex-empresário do cantor, John Branca, e ter passado por extensas regravações, já são indicativos de uma tragédia anunciada. Nessa estrutura desconjuntada, todo o antagonismo é transferido à figura paterna, enquanto os irmãos são relegados à figuração simpática e a mãe a um porto-seguro doméstico. Evitando me repetir sobre o retrato de Michael feito nesse filme, cabe apenas dizer que, a partir do núcleo familiar, o roteiro estabelece uma dicotomia moral muito mais indicativa da manutenção da marca Jackson (não necessariamente Michael) do que de qualquer outra coisa, apesar da relação abusiva com o pai ser algo comprovado.
O meu incômodo com a bússola moral do filme totalmente alheia às nuances e contradições de uma figura tão relevante me levou a buscar os comentários elogiosos, curioso por alguma indicação de que talvez a minha régua esteja alta demais. Vi pessoas defendendo abertamente o filme como celebração, de forma bastante válida, e algumas até elaborando o argumento, esse mais descabido, de que “ele sofreu tanto na vida real, então sua vida no cinema poderia lhe redimir de alguma jeito”.
O cinema não vai, infelizmente, redimir Michael de suas contradições. Muito menos quando sua família, empresários, e um grande estúdio o imaculam de forma tão descarada. Há, ainda por cima, a responsabilidade que pesa sobre os filmes históricos, haja vista que grande parte do público confunde os malabarismos da representação com os eventos em si. A obra de Michael fala por si e é, ela sim, o seu legado, algo que merece ser celebrado e inclusive experienciado numa sala de cinema, aspecto no qual o filme se esbalda não sem razão. Quando confundimos isso com a pessoa e desviamos o olhar para qualquer forma de desconforto que ela possa nos causar, acredito que isso diga mais sobre o estado atual das coisas do que sobre quem Michael Jackson realmente foi ou deixou de ser. Se eu fosse um fã fervoroso, me identificaria com um Michael humano e não com a projeção de um ídolo vazio esboçado por Michael (2026).
Belo texto