Pelas Beiradas: A Sombra do Meu Pai (2025)

“Fazer cinema é se livrar de explicações”. A ideia levantada por Claire Denis parece ressoar de forma especialmente forte para uma geração de cineastas contemporâneos preocupados com os intrincamentos das relações familiares em meio a um mundo em constante transformação. Para além da filmografia da própria Denis, nomes como o de Charlotte Wells e Barry Jenkins não demoram a vir à memória. É pela ausência de um fio narrativo que revelaria “o sentido” de um filme que as coisas se desenvolvem – há, sim, uma história, na qual eventos se seguem de forma coerente, no entanto, o peso emocional é muito mais produto das coisas deixadas de serem ditas. Na esteira de um cinema que aposta nas lacunas, A Sombra do Meu Pai (2025), longa de estreia do diretor nigeriano Akinola Davies Jr., reflete sobre a memória política da Nigéria na década de 1990 em diálogo com a memória pessoal da figura de um pai tanto ausente como afetuoso.

Acompanhamos dois irmãos, Remi e Rakin, moradores de uma vila no interior da Nigéria. Estamos no ano de 1993, nos últimos dias da contagem dos votos da eleição prestes a encerrar os anos de ditadura no país. Remi (Chibuike Marvellous Egbo) e Rakin (Godwin Egbo), atores estreantes que são, de fato, irmãos, preenchem o marasmo da rotina com brincadeiras e, quando não estão sozinhos, são cuidados pela mãe, figura silenciosa e onipresente. Certo dia, porém, quando a mãe não está em casa, o pai, Folarin (Sope Dirisu), chega e logo se prepara para partir novamente. Os irmãos observam a figura paterna com alguma curiosidade e revolta pela partida precoce. O pai então os convida a acompanhá-los em sua ida a Lagos numa viagem de um dia. 

Partindo dessa premissa, o roteiro do filme assume uma estrutura episódica através do olhar das crianças. Desenvolvido ao longo de mais de uma década, o roteiro de Akinola Davies Jr., escrito em colaboração com seu irmão Wale Davies, tem fortes contornos autobiográficos, emprestando aos olhos dos dois irmãos observações em que a ficção e a memória operam de forma conjunta. Um olhar curioso para uma outra pessoa de repente se torna uma encarada, o trejeito específico de um adulto chama atenção, entre outros momentos que, para o olhar mais treinado de um adulto passariam despercebidos, corriqueiros como são, aqui se empilham pela visão dos dois garotos e dão peso à construção de mundo. 

Não à toa, está no campo das sugestões o que o filme tem de mais interessante. A situação política do país, por exemplo, é referenciada pelo olhar passageiro às manchetes de jornal, por um fascínio perigoso pelas feições fechadas dos militares espalhados pela cidade. De maneira coerente à incompreensão de certos eventos pelas crianças, a iminência de um desastre político é elaborada menos por caminhos expositivos e mais por esse tipo de observação silenciosa.

Algo parecido pode ser dito a respeito da figura do pai. O motivo de sua ida a Lagos é a necessidade de receber o salário, atrasado há meses, mas a inesperada companhia dos filhos traz à viagem outros contornos. Enquanto esperam o pagamento, percorrem a cidade num visível esforço de conexão. Sua ausência é, no entanto, sentida pelas crianças até mesmo na sua presença. Impossibilitado de conciliar trabalho e vida familiar, tenta ao longo de um dia compensar a falta que faz na vida das crianças. Nesse sentido, o filme é compreensivo da contradição enfrentada pelo pai, preservando suas melhores intenções, assim como suas falhas e, acima de tudo, um mistério fundamental, alguns pontos cegos que podem ser apenas especulados pelo público.

Se o longa ganha tanto com as sutilezas particulares do ponto de vista dos dois irmãos, talvez o mesmo não possa ser dito a respeito da trilha sonora. Em alguns momentos, parece de forma bastante intencional preencher as lacunas deixadas pelas imagens, direcionando a emoção que já poderia ser sentida sem tanta interferência. A questão da exposição às vezes também aparece em algumas conversas entre personagens, em especial os adultos, apostando na direção contrária a das sutilezas na qual o roteiro se sai tão bem. 

O filme não deixa, apesar disso, de nivelar seu espectador por cima. No vai e vem entre o aspecto pessoal do plano familiar e o aspecto coletivo do plano político, se abre espaço para os eventos se acumularem pelas beiradas, apostando no olhar infantil sobre um mundo que ainda preserva algum encantamento, ainda mais considerando o fascínio despertado pela ida à caótica cidade grande. A figura do pai busca, na medida do possível, amenizar o atrito entre esses dois mundos, sem sucesso. Ao fim, essa espécie de blindagem fracassada promovida pelo pai parece uma forma de indicar que esses dois irmãos são tanto filhos de seu tempo, no qual a Nigéria se encontra no impasse entre a democracia e a ditadura, quanto de seu pai, um homem cuja imagem se tornou difusa pela distância da memória e por suas contradições tão humanas.