“Caminhando” entre “O dentro é o fora”

É como entrar numa sala, caminhar por suas voltas, procurar seu fim, e encontrar o ponto de partida novamente. A ideia de um espaço que representa o infinito entre progredir e regressar. Um caminho que passa do interior ao exterior sem que alguma porta se abra, ou uma luz ilumine, ou a noite apague para especificar o acontecimento. É dentro e fora: essa é a fita de Möbius. 

“Caminhando” (1963), Lygia Clark

Jacques Lacan (1961-1962) recorre à topologia da fita de Möbius para pensar uma superfície em que não há uma divisão nítida entre interior e exterior. Ao percorrê-la, passa-se de um lado ao outro sem atravessar uma fronteira definida, revelando uma continuidade que subverte a oposição entre dentro e fora.

Essa concepção estabelece um diálogo com a obra “Caminhando” (1963), da artista brasileira Lygia Clark, na qual se propõe que o participante corte continuamente uma fita de Möbius de papel. O gesto não conduz à separação da superfície, mas produz novas configurações cada vez mais estreitas e entrelaçadas. O trabalho desloca a obra do objeto acabado para a experiência do ato, fazendo da própria ação do participante sua realização. 

“Caminhando” (1963), Lygia Clark

A noção de continuidade da experiência entre o interior e o exterior está presente também no texto “O dentro é o fora” (1965). A superfície torna-se deformável, capaz de produzir configurações inesperadas, ideia que se materializa igualmente na escultura homônima, em que uma chapa de alumínio recortada assume um percurso contínuo, tornando visível essa inversão entre dentro e fora.

Sob essa óptica, a fita de Möbius oferece uma imagem que possibilita pensar o sujeito na psicanálise. Em vez de uma separação determinada entre interior e exterior, o que se apresenta é uma continuidade na qual essas dimensões se constituem mutuamente. Como escreve Clark (1965), “já não há distância entre o passado e o presente”; a experiência organiza-se como uma totalidade em permanente transformação. A cada corte, a fita permanece uma só, mas seu entrelaçamento torna-se mais estreito, figurando um processo em que a distinção entre dentro e fora se desfaz. 

”O dentro é o fora” (1963), Lygia Clark

Referências

CLARK, Lygia. Caminhando. 1963. Disponível em: https://portal.lygiaclark.org.br/acervo/7074/caminhando. Acesso em: 13 jul. 2026. 

CLARK, Lygia. O dentro é o fora. 1965. Disponível em: https://portal.lygiaclark.org.br/acervo/7082/o-dentro-e-o-fora. Acesso em: 13 jul. 2026. 

JUSTINO, Maria José. Lygia Clark, a vivência dos paradoxos. Cultura Visual, Salvador, n. 15, p. 95-114, maio 2011. 

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 9: A Identificação. Tradução de Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1961-1962.