A Terra do Meu Pai (2026)
Histórias de volta para casa não são nenhuma novidade para o público geral, vide o sucesso da adaptação de Nolan do atemporal poema de Homero em A Odisseia (2026), entre tantos outros exemplos a serem pinçados por aí. A Terra do Meu Pai (2026), dirigido por Pawel Pawlikowski, poderia muito bem figurar entre essas histórias, que se repetem sem se repetir. Em todos os casos, porém, a volta para casa nunca é o que se espera, afinal a vida segue e onde um dia foi a casa de alguém o tempo trata de transformar em outra coisa.
Aqui, trata de transformar a Alemanha, para onde o consagrado escritor Thomas Mann retorna, em um país dividido. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Mann, acompanhado de sua filha e assistente pessoal Erika Mann (Sandra Huller), visita tanto a zona soviética de ocupação da Alemanha como a americana, após anos em exílio. Estamos em 1949 e a memória do conflito ainda se mostra palpável na vida dos personagens, tema de outros filmes do diretor como o ótimo Guerra Fria (2018).
Onde fica o lar ao fim? O Filme parece mais preocupado com os desdobramentos emocionais de uma pergunta como essa do que exatamente em formular uma resposta. Assim, busca contrastar a perversão da ocupação americana (inclusive com reminiscências do nazismo) com a militarização autoritária da soviética. Tanto em Frankfurt como em Weimar, onde Mann proclama discursos a plateias lotadas de pessoas da maior importância, o sentimento de deslocamento do escritor é bastante claro.
Parte essencial desse sentimento decorre do contraponto oferecido pela personagem de Huller. Ainda que bastante contida, é mais bem-sucedida em elaborar e reagir às tragédias pessoais e políticas que perpassam a família Mann. O personagem do escritor não se permite tamanho desconsolo e mantém uma frieza por quase toda a duração – até não suportar mais. Se estabelece, nesse meio, um paralelo da relação de Mann com seus filhos e sua pátria, flutuando entre a negligência e a fraternidade. Em especial, a presença de Klaus Mann (August Diehl) paira como uma sombra ao longo de toda a duração.
Frio, assim como Mann, é o próprio filme. Pawlikowski retrata a viagem dos dois personagens com uma fotografia em preto e branco, proporção de tela próxima ao 4:3, câmera estática quase a todo momento e nitidez impressionante. Apesar de plasticamente impecáveis, essas escolhas criam um efeito de distanciamento difícil de remediar. E então cabe o questionamento: havia intenção no distanciamento? E, se sim, por quê? Uma possível resposta passaria, quem sabe, pelos breves momentos de desafogo emocional pelos quais os personagens passam, dada em grande parte pela interpretação da dupla principal. Outra passaria pela correspondência do desterramento sentido pelo próprio protagonista.
Em todo caso, A Terra do Meu Pai (2026) é um filme ao mesmo tempo majestoso e sisudo. Talvez mais sisudo que majestoso. Por mais que a paisagem nostálgica da pátria seja bela, a frieza de tudo ainda se sobressai. Pawlikowski acerta em não resolver o dilema entre Mickey e Stalin, como é posto pelos próprios personagens em certo momento, porque, no final das contas, esse dilema não existe. Resta apenas o escritor cuja existência foi dilacerada pela guerra e seus desdobramentos.