SOL ALEGRIA (2018) – ESPETÁCULOS ACUMULADOS

Texto realizado para o oficina de análise de estilos cinematográficos do festival CineBH

“Prazer pelo prazer é uma das forças mais libertadoras que existem”, anuncia em dado momento uma das personagens de Sol Alegria (2018), dirigido por Tavinho Teixeira. O filme de Teixeira não parece estar distante desse princípio, centrando-se, por sua vez, no prazer da encenação, daquilo que é constitutivo do espetáculo. O prazer pelo prazer de ser filme, artifício. 

 Sol Alegria (2018) se desenrola como uma roadtrip num Brasil distópico e teocrático em que uma família de terroristas é encarregada de levar armas contrabandeadas a um convento de freiras canábicas. A partir daí, o que se segue é uma sucessão de momentos desconjuntados das errâncias dessa família marginal. As sequências passeiam pelos mais diversos filmes e gêneros, do western ao cinema marginal, embaralhando referências em favor de uma elaboração acerca da própria natureza do espetáculo. A estrutura episódica de road movie favorece, naturalmente, a progressão desses personagens através de um país caindo aos pedaços.

Surge, por exemplo, um segmento num convento ocupado pelas tais freiras, figuras de resistência dentro da distopia religiosa cuja sobrevivência é garantida pela plantação e venda de maconha. Em teatrais sequências de orgia, a câmera de Teixeira observa a inversão entre sagrado e profano de uma certa distância, deslizando deliciosamente pelo espaço. Em outros momentos, em especial os de deslocamento no carro, a artificialidade dos cenários é abraçada no uso de fundos projetados atrás do veículo. Assim como os espectadores, os personagens assistem, pela janela do carro, a projeções. E seguimos para o próximo destino.

Impossível dissociar certas ideias do filme do momento político de 2018, ainda mais passados oito anos que fizeram eco à distopia sugerida aqui. Trata-se de um país cujas estruturas de poder imobilizantes se opõem ao impulso libertário da família de terroristas. Logo percebe-se que as respostas formuladas não podem ser retiradas de seu conjunto. O que o filme parece oferecer, pela via do escracho, é muito mais um repertório de encenações, uma série de espetáculos acumulados, do que um caminho único a se seguir. Talvez aí resida o prazer do filme em si mesmo e em sua artificialidade.

O ato final, passado em um circo, abraça de vez a autorreferência. Frente ao público (do circo e do cinema), os personagens performam diante da câmera uma última vez. A presença de Ney Matogrosso, o mais brilhante performer brasileiro, vem como uma adição mais que oportuna. Nesse momento, o filme se torna um comentário sobre si mesmo e, entre tantos aplausos, acaba até soando um tanto autocongratulatório.

Sol Alegria (2018) é um filme de espetáculos acumulados. Saídas libertinas esboçadas para uma distopia autoritária que se provou mais contemporânea do que se poderia esperar. Como muitos dos bons road movies, o prazer sempre esteve no caminho, que nesse caso se deu pela exploração do casamento entre espetáculo e artifício.