O Sentido da Vida (2026) – Distender e Cuidar

Humanitude: treinamento oferecido na casa de repouso em que se passa O Sentido da Vida (2026) cujo princípio é a humanização e individualização do tratamento de idosos em estado delicado de saúde. O método gera discussão entre a equipe do centro, mas tem em Marie-Lou Fontaine (Virginie Efira) uma dedicada defensora. Por essa e outras razões, é sobre as formas de cuidado que o novo filme de Ryusuke Hamaguchi destina suas mais de três horas de duração. Tais formas, que são tantas, surgem como um alento num filme de ternura inquestionável.

Acompanhamos Marie-Lou, diretora da casa de repouso, em seus microdramas burocráticos dentro da instituição, localizada nos arredores de Paris. Vemos um desentendimento com uma funcionária, os cuidados com os pacientes, reuniões com superiores, entre outros momentos corriqueiros. Sua vida em sentido de inércia motivada pelo trabalho é sutilmente perturbada ao conhecer Mari Morisaki (Tao Okamoto), diretora de teatro em câncer terminal.

A aproximação entre as duas é desenvolvida com paciência em conversas alongadas, algumas interessantes, outras nem tanto. Há, por exemplo, uma exposição sobre como o capitalismo diminui as taxas de natalidade nos centros urbanos na qual o filme investe vários minutos. O assunto da mortalidade, não à toa, voltará em outras formas. Fato é que Hamaguchi aposta alto nos diálogos, aproveitando a arte da fala, muito mais atrelada ao teatro, com as ferramentas que o cinema lhe oferece. Entre elas, o controle da encenação (os planos são, em sua maioria, estáticos e os poucos movimentos que surgem causam forte impressão) e, acima de tudo, o tempo.

A relação entre Marie-Lou e Mari se constrói ao longo do tempo, dentro dos limites de uma narrativa mínima. Outro modo de dizer isso seria dizer que, mais do que o conteúdo da conversa em si, parece importar a duração da interação entre as duas e a profundidade assumida por conta disso. A duração é sentida pelo espectador, mas é melhor que seja assim. 

Ao longo do aprofundamento da relação entre elas, é possível perceber o encontro de posições opostas. Se Marie-Lou é diretora de uma instituição cujo objetivo é administrar a morte vagarosa de pacientes idosos, Mari, por outro lado, tem na condição de sua doença um aviso de que a morte pode lhe alcançar assim, de repente. A finitude apresentada em dois aspectos, distendida e repentina, é colocada em relação.

A articulação entre esses dois lados atinge um ponto de graça na hora final do filme, quando a vida no centro de repouso e o trabalho da diretora de teatro finalmente se cruzam. Não é meramente o testamento da arte como cura o que a apresentação final orquestrada por Mari defende, mas algo a mais, num desses momentos de catarse que se encontra no cinema apenas raramente.

As personagens principais de O Sentido da Vida (2026) desenvolvem uma relação que segue num amadurecimento paciente mas que logo floresce e preenche a tela. Um testamento, quem sabe, às relações humanas, sendo o cuidado com o outro a força por trás. Tem, de todo modo, a duração como ferramenta indispensável. Em tempos tão corridos, isso poderia soar até mesmo como um contrassenso, e talvez seja mesmo. Que bom.